Arte: Evandro Rodrigues
André Linn/AE

Apagar luminosos nas áreas modernas de São Paulo é descaracterizar uma paisagem que já está no DNA paulistano. Alguém imagina Nova York sem as luzes da Times Square?

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Cidade sem marca


Por luiz fernando sá

O vôo suave do dirigível da GoodYear quebra a rotina caótica das ruas de São Paulo. O onipresente relógio digital do Itaú, empinado sobre o tradicional Conjunto Nacional, marco do espigão da avenida Paulista, ilumina, informa e orienta notívagos que o miram de vários pontos da cidade. Os painéis enfileirados ao longo do rio Pinheiros alegram e rompem a muralha cinza que oprime passageiros dos veículos que transitam – quando o trânsito permite – pelas inóspitas pistas da Marginal, a imensa avenida cujo nome resume o sentimento de muitos paulistanos diante de seu meio ambiente. Em uma metrópole de poucos marcos naturais, desapegada da história, divorciada do urbanismo e sem identidade arquitetônica, os três exemplos acima acabam se transformando em mais que peças de marketing. Não seriam também pontos de referência da capital dos negócios? Não representariam também fragmentos do espírito cosmopolita de que ela tanto se orgulha?

O relógio, os painéis e o dirigível, agora, são, oficialmente, párias condenados a desaparecer da paisagem de São Paulo. Uma lei aprovada e sancionada na terça-feira 26 pelas autoridades municipais, os incluiu no extenso índex que bane da cidade quase todo tipo de publicidade externa. O projeto, batizado de Cidade Limpa, tem o nobre propósito de combater a irritante poluição visual que entope a vista de moradores e visitantes da Paulicéia. É desvairado, no entanto, por não entender a cidade em que se pretende aplicá-lo. São Paulo não é uma, são várias. A do centro, com prédios históricos, ruas e viadutos centenários, calçadões de inspiração européia, carece, sim, de uma faxina visual radical, que lhe resgate as formas e a alma e a torne mais receptiva e menos opressiva. É o espaço para apreciar o detalhe, para se cruzar uma rua como se um bonde fosse passar a qualquer momento. Há também a São Paulo da ocupação desordenada, das faixas pintadas à mão sufocando poucas árvores e escondendo o que restou de horizonte, das fachadas soterradas por placas desproporcionalmente grandes. Desta, ninguém sentirá falta se a nova lei, de fato, chegar às ruas dentro de seis meses, como promete o prefeito Gilberto Kassab.

Mas e a São Paulo moderna, capitalista, das avenidas com inspiração americana, dos edifícios de última geração? Nela, a profusão de logomarcas em luminosos é indicativo da vida pulsante, do elo do paulistano com o mundo globalizado. Apagá-los é descaracterizar essa faceta que já está no DNA paulistano. Alguém imagina Nova York sem a profusão de luzes da Times Square?

A aprovação da lei da Cidade Limpa é polêmica com as dimensões da metrópole. Atinge parte da indústria publicitária – o segmento de mídia exterior movimenta algo em torno de R$ 200 milhões anuais. Empresários da área afirmam ser impossível, na sua vigência, manter o nível de emprego atual. Mas o episódio também é a cara da cidade que, sem planejamento, é constantemente atropelada pelos seus problemas. A poluição visual, como de resto qualquer outra, é endêmica e as tentativas anteriores de combatê-la resultaram sempre em fiasco, ora por conta da permissividade exagerada, ora pela ausência de fiscalização que exigisse o cumprimento das normas que já existiam. A atual gestão adotou nova postura: a proibição quase total. Mas, tanto quanto as outras, desprezou a oportunidade de um estudo mais profundo das diversas realidades contidas na mesma cidade. É difícil prever, também, se o prefeito vai conseguir impor respeito à lei que criou. Ou se ela virará poluição legislativa.