| Arte:
Evandro Rodrigues |
 |
|
|
Apagar luminosos
nas áreas modernas de São Paulo é descaracterizar uma
paisagem que já está no DNA paulistano. Alguém imagina
Nova York sem as luzes da Times Square?
|
 |
|
| |
Cidade
sem marca

Por luiz fernando sá
O vôo suave do dirigível da GoodYear quebra
a rotina caótica das ruas de São Paulo. O onipresente
relógio digital do Itaú, empinado sobre o tradicional
Conjunto Nacional, marco do espigão da avenida Paulista,
ilumina, informa e orienta notívagos que o miram de
vários pontos da cidade. Os painéis enfileirados
ao longo do rio Pinheiros alegram e rompem a muralha cinza
que oprime passageiros dos veículos que transitam –
quando o trânsito permite – pelas inóspitas
pistas da Marginal, a imensa avenida cujo nome resume o sentimento
de muitos paulistanos diante de seu meio ambiente. Em uma
metrópole de poucos marcos naturais, desapegada da
história, divorciada do urbanismo e sem identidade
arquitetônica, os três exemplos acima acabam se
transformando em mais que peças de marketing. Não
seriam também pontos de referência da capital
dos negócios? Não representariam também
fragmentos do espírito cosmopolita de que ela tanto
se orgulha?
O relógio, os painéis e o dirigível,
agora, são, oficialmente, párias condenados
a desaparecer da paisagem de São Paulo. Uma lei aprovada
e sancionada na terça-feira 26 pelas autoridades municipais,
os incluiu no extenso índex que bane da cidade quase
todo tipo de publicidade externa. O projeto, batizado de Cidade
Limpa, tem o nobre propósito de combater a irritante
poluição visual que entope a vista de moradores
e visitantes da Paulicéia. É desvairado, no
entanto, por não entender a cidade em que se pretende
aplicá-lo. São Paulo não é uma,
são várias. A do centro, com prédios
históricos, ruas e viadutos centenários, calçadões
de inspiração européia, carece, sim,
de uma faxina visual radical, que lhe resgate as formas e
a alma e a torne mais receptiva e menos opressiva. É
o espaço para apreciar o detalhe, para se cruzar uma
rua como se um bonde fosse passar a qualquer momento. Há
também a São Paulo da ocupação
desordenada, das faixas pintadas à mão sufocando
poucas árvores e escondendo o que restou de horizonte,
das fachadas soterradas por placas desproporcionalmente grandes.
Desta, ninguém sentirá falta se a nova lei,
de fato, chegar às ruas dentro de seis meses, como
promete o prefeito Gilberto Kassab.
Mas e a São Paulo moderna, capitalista, das avenidas
com inspiração americana, dos edifícios
de última geração? Nela, a profusão
de logomarcas em luminosos é indicativo da vida pulsante,
do elo do paulistano com o mundo globalizado. Apagá-los
é descaracterizar essa faceta que já está
no DNA paulistano. Alguém imagina Nova York sem a profusão
de luzes da Times Square?
A aprovação da lei da Cidade Limpa é
polêmica com as dimensões da metrópole.
Atinge parte da indústria publicitária –
o segmento de mídia exterior movimenta algo em torno
de R$ 200 milhões anuais. Empresários da área
afirmam ser impossível, na sua vigência, manter
o nível de emprego atual. Mas o episódio também
é a cara da cidade que, sem planejamento, é
constantemente atropelada pelos seus problemas. A poluição
visual, como de resto qualquer outra, é endêmica
e as tentativas anteriores de combatê-la resultaram
sempre em fiasco, ora por conta da permissividade exagerada,
ora pela ausência de fiscalização que
exigisse o cumprimento das normas que já existiam.
A atual gestão adotou nova postura: a proibição
quase total. Mas, tanto quanto as outras, desprezou a oportunidade
de um estudo mais profundo das diversas realidades contidas
na mesma cidade. É difícil prever, também,
se o prefeito vai conseguir impor respeito à lei que
criou. Ou se ela virará poluição legislativa.
|